Sofia Gubaidulina

Escrito por Eliana Monteiro da Silva - abril/2016

Sofia Gubaidulina (1931)

Biografia

        A compositora russa Sofia Gubaidulina nasceu em Chistopol, cidade da República do Tartaristão, em 1931. Apesar de sua família contar com pouquíssimos recursos financeiros, estudou piano e composição no Conservatório Kazan, formando-se em 1954 sob a orientação do pianista Grigory Kogan.

        Aprendeu as primeiras lições em um pequeno piano comprado por seus pais. Ao entrar na escola, porém, deparou-se com um piano de cauda repleto de possibilidades melódicas e timbrísticas, que a convidaram a explorar o teclado e o encordoamento sem reservas. Segundo Sofia, os exercícios que lhe eram ensinados ocupavam uma pequena parte do potencial latente do instrumento. Naquele momento decidiu que ela mesma iria criar sua música, para preencher a ausência sonora que percebia no mundo que a rodeava.

        A relação com o pai, engenheiro, foi de comunhão profunda. Sofia o recorda como um homem calado, sério, pensativo, que a levava em caminhadas nas quais o silêncio se enchia de significado. Esta convivência é citada pela compositora como a mais importante de sua vida.

A artista também recorda o ano de 1959 como crucial em sua carreira. Foi quando, tocando uma transcrição para piano de sua própria sinfonia para o exame de formatura em composição, ouviu um elogio de Shostakovich.  O mestre lhe aconselhou a seguir trilhando seu caminho “incorreto”, desenvolvendo um estilo próprio que escapava às regras do tradicionalismo impostas, anteriormente, pelo governo de Stálin, e em seu tempo por Brezhnev.

        A religião marcou sua vida desde os cinco anos. Seu avô era muçulmano e havia traduzido o Alcorão para o russo, mas seu pai era ateu e avesso às ideias daquele. Sofia cresceu num país em que o misticismo era proibido e sua mãe evitava qualquer prática religiosa. A compositora conheceu o Cristianismo nos livros e em casas de vizinhos, mas identificou-se com seus fundamentos e colocou-os em sua música. Segundo a mesma, os sons eram sentidos como sagrados e transportavam-na para outras dimensões.

        Sofia Gubaidulina seguiu seus estudos de composição no Conservatório de Moscou, sob orientação de Nicolai Peiko, assistente de Shostakovich. Pós graduou-se orientada por Vissarion Shebalin e, desde 1963, esteve atuando ativamente no meio musical. Em entrevistas, ressalta a grande influência de professores judeus em sua trajetória. Em 1975, fundou o Astreya Ensemble, dedicado à divulgação e improvisação sobre músicas folclóricas de regiões da Rússia, Leste e Centro da Ásia e Cáucaso. Instrumentos, ritmos e melodias destes povos influenciariam para sempre suas composições.

        Diversos prêmios foram concedidos a obras de sua autoria, como a medalha de ouro honorária da Stockholm Concert Hall Foundation, em 2000, a Goethe Medal of the City of Weimar, em 2001, o distintivo de Honra ao Mérito da República Federal da Alemanha em 2002, e o prêmio Living Composer oferecido no Cannes Classical Awards em 2003. Suas peças têm sido comissionadas pela BBC, pelo Berlin Festival, pela The New York Philharmonic Orchestra, entre outros.  

        Ao lado de Schnittke, Denisov and Silvestrov, Sofia Gubaidulina é reconhecida como representativa da Nova Música da antiga União Soviética, o que em grande parte se deve à divulgação de sua obra pelo colega e amigo Gidon Kremer, virtuoso violinista.


 

Composições

            Sofia introduz, em suas composições, sonoridades que aludem a memórias e experiências vividas. A peça O jardim de alegrias e tristezas, por exemplo, remete-se a momentos de sua infância no quintal de sua casa, onde a escassez de brinquedos a convidava a mirar o céu e transportar-se para outros mundos. Segundo a compositora, nestes instantes fugazes a pobreza se transformava em infinita riqueza, e ela se sentia livre. A liberdade é traduzida pela fusão de gestos derivados da performance em determinados instrumentos, inserção de cantos gregorianos, microtons, e escalas simétricas.

            A sonata para acordeão Et Expecto Resurrectionem Mortuorum é uma das tantas que revelam o lado místico de Sofia. A mesma relata que os instantes de silêncio que permeiam cultos religiosos levam-na a sensações de êxtase espiritual.  Conectar-se com o sagrado através de sons tem sido seu objetivo. Os números e suas relações também servem a este fim em suas criações.

            No âmbito da matemática, várias são as referências usadas pela compositora. O número sete, por exemplo, é considerado mágico, e aparece em obras como Seven Words. O numeral também influencia na escolha do sétimo movimento de Alleluja para inserir um Salmo de David ou na indicação de sete instrumentos para obras como ...Heute frueh, kurz vor dem Aufwachen... .

            Por sua vez, a sequência Filbonacci orienta e equilibra suas criações no que toca à forma. Sofia usa a ordem numérica 1, 2, 3, 5, 8, 13, etc., na divisão, duração e dinâmica das seções. Para ela a sequência é orgânica e faz a música respirar. Isto pode ser conferido nas peças Perception e In the beginning was the Rhythm, nas quais o número de notas por frase, o número de compassos por seção e outros elementos são pensados de acordo com esta sequência. Outra concepção da mesma técnica aparece em seu Concerto para Violino.
 

Para conhecer sua obra

1. Portrait of Sofia Gubaidulina, part 1-3 (vídeo). BBC Documentary, 1990. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=uwnEtWW0hWI

2. Sofia Gubaidulina - Johannes Passion (vídeo). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=akk7MuJWIeg

3. Sofia Gubaidulina - Glorius Percussion (2008) - Les Percussions de Strasbourg,  Biennale Musica 2013. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=7czMd6huJ2w
4. Sofia Gubaidulina: Fachwerk, for bayan, percussion and string orchestra (2009). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=BzA-yCxAf08

Sofia Gubaidulina (1931)

Biography

        The Russian composer Sofia Gubaidulina was born in 1931 in Chistopol, city in the Republic of Tatarstan, Russia. Even though she was born in a low middle class family, she had the opportunity to study piano and composition at the Kazan Conservatory and accomplished her graduation in 1954 under the supervision of pianist Grigory Kogan.

        She started her first piano classes using a small piano provided by her parents. Later, when she finally entered the conservatory, she came across a grand piano full of melodic and tonic possibilities and that fact worked on her as an invitation to keys and chords exploration without boundaries. Soon Sofia started to consider that the practice exercises that were taught to her represented only a small portion of the immense and pulsing potential of the instrument. Therefore, from that moment on, she decided she would invest in creating her own music to fill the sound gaps she perceived in the world that surrounded her.

        Her relationship with her father, an engineer, could be described as a deep communion. Sofia always remembers her father as a quiet, serious and thoughtful man that used to take her to walks full of meaningful silences. This coexistence was always mentioned by the composer as the most important in her life.

        Sofia also remembers 1959 as the most crucial year in her career. In a special occasion that year she was playing a piano transcription of her own symphony, during her final “composition” exam, when she received a meaningful compliment by Shostakovich. The master advised her to keep on venturing her 'incorrect' composition path and developing her own style, which was clearly not following the rules of tradition, as imposed by the past Stalin's government or by Brezhnev's administration at that moment.

        Religion was also another great influence in her life since she was five. Her grandfather was a muslim and had translated the Koran to Russian, but her father was an atheist and completely against his own father's ideas. Sofia grew up in a country where mysticism  was forbidden and her mother avoided any type of religious praxis. Nevertheless the composer had the opportunity to access Christian values through books of her own choice and also when visiting her neighbors. She somehow became connected to Christian principles and absorbed them into her music. As per Sofia, she felt the sound textures as sacred and they had the power to transport her to other dimensions.

        Sofia Gubaidulina continued her composition studies at the Moscow Conservatory under the orientation of Nicolai Peiko, Shostakovich's assistant. She earned her post-graduation degree advised by Vissarion Shebalin and, since 1963, has been actively performing in the musical scenario. In her interviews Sofia remarks the great influence received from Jewish musical masters through all her career. In 1975 she founded the Astreya Ensemble, dedicated to the diffusion and improvisation over folklore music and themes from Russia, Eastern and Central Asia and Caucasus. The instruments, rhythms and melodies from these regions and peoples had always influenced her compositions.

        Several of her works were awarded with important prizes such as the Honorary Gold Medal from the Stockholm Concert Hall Foundation in 2000, the Goethe Medal of the City of Weimar in 2001, the Medal of Honor of the German Democratic Republic (GDR) in 2002 and the Living Composer prize offered at the Cannes Classical Awards in 2003. Up to the present her compositions have been commissioned by the BBC, by the Berlin Festival and by the New York Philharmonic Orchestra, among others.

        Side by side with Schnittke, Denisov and Silvestrov, Sofia Gubaidulina is recognized as a representative of the ‘New Music’ from the Soviet Union era, a fact partially resulting from the diffusion that Gidon Kremer, her colleague and virtuous violinist, has dedicated to her catalogue.

Compositions

        Sofia’s compositions engage sounds that refer to her memories and lived experiences. Her piece “The Garden of Joys and Sorrows”, for example, addresses moments from her childhood, at her home backyard, when the lack of toys would lead her to staring up at the sky and being transported to other worlds. As per Sofia, these evanescent moments could turn the poverty feeling into endless richness and she could feel truly free. The freedom is translated by the fusion of gestures derived from the performance of specific instruments and by the insertion of Gregorian chants, microtones and symmetric scales.      

        The sonata for accordion ‘Et Expecto Resurrectionem Mortuorum’ is one of many compositions that reveal Sofia’s mystic side. She described that the moments of silence, as perceived in religious rituals, raise spiritual enjoyment sensations on her. The connection through sounds with the sacred has been a lasting objective of hers. The numbers and their relations serve as well to this same aim in her compositions.

        In the mathematics field the composer uses several references. The number ‘seven’, for instance, is considered magical and appears in pieces such as “Seven Words”. The same number also influenced the choice of the seventh movement of ‘Alleluia' to carry the “Psalm of David” and the indication of seven instruments for pieces such as ‘…Heute frueh, kurz vor dem Aufwachen…’.

        By its turn, the Filbonacci sequence also drives and balances her compositions regarding their structure. Sofia uses the numerical order 1, 2, 3, 5, 8, 13, etc., in the division, duration and sectional dynamics organization. She considers the sequence as an organic structure that allows the music to breathe. This aspect can be perceived in her pieces ‘Perception’ and ‘In the beginning was the Rhythm’, in which the number of notes by phrase, the number of compasses by section and the other elements are all thought in accordance to this sequence. Another conception of the same technique also appears in her “Violin Concerto”.

More information

1. Portrait of Sofia Gubaidulina, part 1-3 (vídeo). BBC Documentary, 1990. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=uwnEtWW0hWI

2. Sofia Gubaidulina - Johannes Passion (video). Available in: https://www.youtube.com/watch?v=akk7MuJWIeg

3. Sofia Gubaidulina - Glorius Percussion (2008) - Les Percussions de Strasbourg,  Biennale Musica 2013. Available in https://www.youtube.com/watch?v=7czMd6huJ2w

4. Sofia Gubaidulina: Fachwerk, for bayan, percussion and string orchestra (2009). Available in: https://www.youtube.com/watch?v=BzA-yCxAf08

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