Florentine Mulsant

Escrito por Eliana Monteiro da Silva - março/2019

Florentine Mulsant (1962)

Biografia

        Florentine Mulsant nasceu em Dakar, Senegal, no dia 27 de março de 1962. Sua formação de compositora se deu em Paris, no Conservatório Nacional Superior de Música e Dança. De acordo com seu site pessoal, o encontro com a música como atividade lúdica e, futuramente, profissional, se deu na infância, quando a família comprou um piano. A compositora recorda as horas passadas junto ao instrumento, improvisando, experimentando sonoridades, sozinha, em companhia daquele universo sonoro.

        Ingressando no Conservatório, onde estudou por doze anos, seguiu uma formação tradicional com renomados professores franceses: estudou harmonia com Jean-Claude Raynaud, contraponto com Jean-Claude Henry, fuga com Marcel Bitsch, análise musical com Jacques Casterède, orquestração com Serge Nigg e composição com Allain Bancquart. Estudou também na Schola Cantorum com Allain Gaussin. É de surpreender que tenha seguido a carreira musical - principalmente a composição -, já que não havia qualquer modelo feminino entre os ministrantes das disciplinas que cursou no Conservatório. Ainda assim, a musicista se lembra dos anos de estudo naquela instituição como cruciais para sua escolha profissional, por lhe possibilitarem compreender e apreender diferentes técnicas de escrita composicional e desenvolver, posteriormente, sua linguagem pessoal.

        A primeira premiação e reconhecimento veio em 1987, com o primeiro lugar no concurso de composição da Schola Cantorum. No mesmo ano recebeu um prêmio pelo desempenho na técnica do Contraponto e, no ano seguinte, da Fuga. Começa a frequentar Master Classes na Academia Chigiana de Siena, na Itália, com Franco Donatoni. Entre 1989 e 90 descobre a escola de composição estadunidense, estudando em Boston com compositores de Harvard e do New England Conservatoty.

        A nova música alemã atravessa seu caminho em 1999, quando participa de Master Classes de composição com Karlheinz Stockhausen em Kurten, Alemanha. Florentine atesta que houve uma mudança na forma e no colorido harmônico de sua produção musical após esta experiência. Passa a ser reconhecida e se afirma como uma compositora com estilo próprio. Neste contexto, considera marcantes em seu vocabulário o pós-serialismo difundido pela escola europeia dos anos 1950 e a redescoberta do expressionismo musical.

        Florentine compõe para instrumentos solo - notadamente piano, violino, violoncelo, flauta e órgão -, e para conjuntos de câmara. Entre suas peças é possível destacar um ciclo de melodias para soprano, flauta e piano; um trio para flauta, harpa e percussão; e um trio para violino, violoncelo e piano. Um quarteto de cordas e outro para clarinete, violino, violoncelo e piano também são peças maduras da compositora, assim como um quarteto com piano e um quinteto de sopros. A compositora dedica atenção especial a cada instrumento trabalhado nos conjuntos de câmara.

O material sonoro é uma fonte de inspiração muito importante. A escolha de um instrumento ou da formação instrumental é determinante para o colorido timbrístico que se quer engendrar. Eu respeito sempre a identidade de cada instrumento selecionado e “entro” na cor musical possibilitada (MULSANT, apud CARNE, s.d.).

        Para conhecer as possibilidades de cada instrumento musical, Florentine compõe primeiramente para solo. Em relação à forma musical, se apoia em estruturas antigas como tiento e passacaille, entre outras. A partir delas imagina formas múltiplas, desde que reconheça nas mesmas a condição de uma escuta coerente e equilibrada. Leva também em consideração a extensão temporal pretendida para cada criação, muitas das quais respondem a encomendas de intérpretes, grupos ou orquestras.

        As obras de Florentine têm sido apresentadas em diversos festivais e encontros, tais como Gavaudun, Musikalia, Arcachon e Festival des Jeunes Interprètes. São também ouvidas em diferentes cidades francesas, na Bélgica, Alemanha e EUA. A associação France Musiques lhe encomendou um quarteto de cordas em 2004, na categoria Alla Breve de seus eventos. Sua Passacaille Op. 29 é dedicada à pianista Lise de la Salle, e a Sonate pour violoncelle Op. 27 foi escrita para o violoncelista Henri Demarquette.

        Florentine lecionou por oito anos na Université de Paris IV-Sorbonne. Juntamente com a experiência adquirida como professora de composição no Conservatório de Suresnes, o ensino a ajudou a compreender a importância de dar uma clareza pedagógica à escrita musical. Em suas aulas ou palestras, a compositora sempre propõe a realização de análises profundas e coletivas sobre as obras apresentadas. Após as análises, as obras são tocadas integralmente e discutidas pelos(as) participantes.

        A compositora sublinha a necessidade de escutar outros(as) compositores(as), conhecer as histórias da música, ir a concertos. Quatro compositores lhe são mais prolíficos como fonte de inspiração: J. S. Bach, Robert Schumann, Henri Dutilleux e Jean-Louis Florentz. Interessa-se também por pintura e poesia. Considerando que a arte ocupa um lugar preponderante em nossas vidas, acredita que as mulheres compositoras devam ocupar este espaço que lhes foi negado por séculos.

        As obras de Florentine Mulsant são editadas pela casa Furore, empenhada em divulgar internacionalmente a música feita por mulheres.

Para conhecer sua obra

Mais informações

Florentine Mulsant (1962)

Biography

        Florentine Mulsant was born in Dakar, Senegal, on March 27, 1962. Her trajectory to be a composer took place in Paris at the National Conservatory of Music and Dance. According to her personal website, the encounter with music as a playful and, in the future, professional activity, occurred in childhood, when the family bought a piano. The composer remembers the hours spent next to the instrument, improvising, experiencing sonorities, alone, in the company of that sonorous universe.

        Once in the Conservatory, where she studied for twelve years, she followed a traditional study including  harmony with Jean-Claude Raynaud, counterpoint with Jean-Claude Henry, fugue with Marcel Bitsch, musical analysis with Jacques Casterède, orchestration with Serge Nigg and composition with Allain Bancquart. She also studied at the Schola Cantorum with Allain Gaussin. It is surprising that she developed a musical career - especially in composition - since there was no female model among the ministers of the subjects who attended the Conservatory. Still, the musician remembers the years of study in that institution as crucial to her professional choice, for enabling her to understand and apprehend different techniques of compositional writing and later to develop her personal language.

        The first award and acknowledgement came in 1987, with a first place in the Schola Cantorum composition competition. In the same year she received an award for performance in the technique of Counterpoint and, the following year, of Fuga. She began attending Master Classes at the Academia Chigiana in Siena, Italy, with Franco Donatoni. Between 1989 and 90 she discovered the school of American composition, studying in Boston with composers of Harvard and the New England Conservatory.

        The new German music crossed her path in 1999, when she took part in Master Classes of composition with Karlheinz Stockhausen in Kurten, Germany. Florentine testifies that there has been a change in the form and colorful harmony of her musical production after this experience. She becomes well known person and affirms herself as a composer with her own style. In this context, she considers the post-serialism spread by the European school of the 1950s and the rediscovery of musical expressionism remarkable in her vocabulary.

        Florentine composes for solo instruments - notably piano, violin, cello, flute and organ - and for chamber ensembles. Among her musical scores it is possible to emphasize a cycle of melodies for soprano, flute and piano; a trio for flute, harp and percussion; and a trio for violin, cello and piano. A string quartet and another quartet for clarinet, violin, cello and piano are also mature pieces of the composer, as well as a quartet with piano and a quintet of woodwinds. The composer pays particular attention to each instrument worked on the chamber ensembles.

Sound material is a very important source of inspiration. The choice of an instrument or an instrumental group is decisive for the color tone that one wants to engender. I always respect the identity of each instrument selected and "enter" in the musical color made possible (MULSANT, apud CARNE, s.d.).

        In order of knowing the possibilities of each musical instrument, Florentine composes primarily for solo. Related to the musical form, she relies on old structures such as tiento and passacaille, among others. From them, she imagines multiple forms, as long as she recognizes in them the condition of a coherent and balanced listening. She also considers the intended time span for each creation, many of which are commissioned by interpreters, small groups or orchestras.

        Florentine's works have been presented at various festivals and gatherings such as Gavaudun, Musikalia, Arcachon and Festival des Jeunes Interprètes. They are also heard in different French cities, in Belgium, Germany and USA. The association France Musiques commissioned a string quartet in 2004, in the category Alla Breve of its events. Her Passacaille Op. 29 is dedicated to the pianist Lise de la Salle, and the Sonate pour violoncelle Op. 27 was written for the cellist Henri Demarquette.

        Florentine taught for eight years at the Université de Paris IV-Sorbonne. Along with her experience as a composition teacher at the Suresnes Conservatory, teaching helped her to understand the importance of giving pedagogical clarity to musical writing. In her classes or lectures, the composer always proposes to carry out deep and collective analyzes on the works presented. After the analyzes, the works are played in full and discussed by the participants.

        The composer stresses the need to listen to other composers, besides knowing the stories of music, and going to concerts. Four composers are most prolific as a source of inspiration: J. Bach, Robert Schumann, Henri Dutilleux and Jean-Louis Florentz. She is also interested in painting and poetry. Considering that art occupies a preponderant place in our lives, she believes that women composers must occupy this space, which has been denied for them for centuries.

        Florentine Mulsant’s compositions have been edited by the house Furore, committed to internationally disseminating the music made by women.

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